Faculdade Perto

Escolher caminhos não é o mesmo que narrativa transmídia

Entenda como navegação significativa, agência narrativa e distribuição transmídia oferecem formas diferentes de participação ao público.

Faculdade PertoAtualizado em 8 min de leitura

Não. Escolher um caminho pode produzir uma narrativa pela navegação ou expressar agência dentro de um mundo narrativo, conforme o tipo de escolha oferecida ao público[1]. A narrativa transmídia corresponde a outro mecanismo: a distribuição de uma história ou de conteúdos relacionados entre meios distintos[1]. Os três mecanismos podem coexistir, mas não são equivalentes[1].

A distinção depende de observar onde a participação acontece. Na navegação significativa, o sentido surge do percurso selecionado e interpretado[1]. Na agência narrativa, o participante escolhe personagens, ações ou respostas dentro do mundo proposto[1]. Na estrutura transmídia, conteúdos relacionados são distribuídos entre plataformas, e cada meio pode oferecer uma forma própria de participação[1].

Agência dentro do mundo narrativo

Nos jogos digitais, a agência narrativa aparece quando o participante escolhe personagens, ações e respostas dentro do mundo proposto[1]. A participação, nesse caso, está vinculada ao que a pessoa faz como parte da situação narrativa apresentada, e não somente à ordem em que consulta conteúdos[1].

O arco da história e o envolvimento emocional tornaram-se componentes valorizados no design de jogos[1]. Dentro do recorte das fontes, agência narrativa designa essa capacidade de agir por meio das opções oferecidas pelo mundo narrativo[1]. A fonte não autoriza concluir que toda escolha produz liberdade irrestrita ou transforma integralmente a história, apenas que personagens, ações e respostas podem ser escolhidos pelo participante[1].

Já em um jogo de ficção científica, quando você escolhe se o personagem principal confia ou não em um aliado suspeito, essa decisão modifica as cenas seguintes: diálogos mudam, portas se abrem ou fecham, conflitos se desenvolvem de forma distinta. Você não está apenas selecionando a ordem dos conteúdos; está agindo dentro das regras do mundo proposto, e a história responde a suas ações[1]. Essa é a diferença central: você não organiza um percurso externo, você escolhe dentro de um universo narrativo que já existe.

O que a abertura precisa mostrar para a história começar a andar: infográfico ilustrado do curso Contação de História
Infográfico: O que a abertura precisa mostrar para a história começar a andar · material do curso de Contação de História

Distribuição transmídia

Narrativa transmídia distribui uma história ou conteúdos relacionados entre plataformas, incluindo meios audiovisuais, ambientes digitais, jogos, dispositivos móveis e atividades presenciais[1]. Cada meio pode oferecer uma forma diferente de participação e ampliar a relação do público com o universo narrativo[1].

O critério central é a relação entre conteúdos distribuídos em meios distintos[1]. Trocar de página ou de canal durante um percurso não demonstra, por si só, uma estrutura transmídia, pois esse movimento também pode pertencer a uma narrativa construída pela navegação[1]. Da mesma maneira, escolher ações em um jogo caracteriza agência dentro do mundo proposto, mas não comprova isoladamente a distribuição transmídia[1].

Contextos relacionados para aprofundamento: onde nasce o significado? discute como a sequência produz narrativa; como diferenciar final aberto ou conflito interrompido examina desfechos narrativos; personagem simbólica sem apagá-la aborda representação em narrativas.

O que cada mecanismo oferece

MecanismoUnidade observadaParticipação do públicoCritério de identificação
Navegação significativaSequência entre conteúdosSelecionar, ordenar e interromper acessosO percurso é registrado, organizado e interpretado como portador de significado[1]
Agência narrativaAções dentro do mundo narrativoEscolher personagens, ações ou respostasA escolha ocorre no interior da situação proposta[1]
Distribuição transmídiaConteúdos relacionados em meios distintosParticipar de formas diferentes conforme a plataformaA história ou seus conteúdos relacionados estão distribuídos entre plataformas[1]

A tabela separa três perguntas: qual percurso foi construído, que ação foi escolhida dentro da narrativa e como os conteúdos se distribuem entre meios[1]. Perguntar apenas se houve escolha é insuficiente para distinguir os mecanismos, porque navegação e agência envolvem tipos diferentes de seleção[1].

Um exemplo aplicado

Imagine uma obra digital com uma página e três vídeos. Se a pessoa escolhe a ordem dos vídeos, interrompe um deles e o percurso resultante é registrado e interpretado como significativo, há navegação com função narrativa[1]. Se um dos conteúdos permite escolher um personagem, uma ação ou uma resposta dentro do mundo apresentado, essa parte oferece agência narrativa[1]. Se a obra também distribui conteúdos relacionados entre página, filme e jogo, com formas de participação próprias de cada meio, existe uma estrutura transmídia[1].

O mesmo projeto pode, assim, combinar os três mecanismos sem torná-los sinônimos[1]. A navegação organiza um percurso, a agência situa escolhas dentro do mundo narrativo e a transmídia relaciona conteúdos distribuídos entre plataformas[1].

Referência contextual: conteúdo relacionado do curso.

A história avançou ou só ficou mais carregada?: infográfico ilustrado do curso Contação de História
Infográfico: A história avançou ou só ficou mais carregada? · material do curso de Contação de História

Como classificar a participação

Quando o sentido depende da sequência de conteúdos selecionados e interrompidos, o mecanismo descrito pela fonte é a navegação significativa[1]. Quando a participação consiste em escolher personagens, ações ou respostas dentro do mundo proposto, trata-se de agência narrativa[1]. Quando uma história ou conteúdos relacionados aparecem distribuídos entre meios distintos, com possibilidades diferentes de participação, o mecanismo é a narrativa transmídia[1].

A evidência fornecida permite realizar essa diferenciação conceitual, mas não estabelece regras completas para projetar jogos, interfaces ou produções multiplataforma. Por isso, a classificação deve permanecer limitada aos critérios explicitamente descritos nas três fontes[1].

Uma limitação importante: os critérios expostos permitem classificar o que já existe, mas não cobrem todas as variações que surgem em projetos reais. Histórias interativas comerciais frequentemente mesclam os três mecanismos de forma que as fronteiras ficam borradas. O que a fonte oferece é um sistema conceitual para você reconhecer e nomear o que está acontecendo, não um guia completo de design ou uma matriz que resolve todos os casos de ambiguidade[1].

Perguntas frequentes

Escolher a ordem de vídeos em um site é sempre navegação significativa?

Não obrigatoriamente. Se você apenas muda a sequência de reprodução sem que a fonte registre ou interprete seu percurso como portador de significado, é apenas acesso individual. Navegação significativa exige que o padrão de seleções seja organizado e compreendido como narrativo[1]. Um exemplo: em um documentário transmidiático, quando o site registra quais vídeos você assistiu e apresenta um relatório final dizendo "você escolheu a história da inovação sobre a história do conflito", aí o percurso ganhou significado narrativo.

Um jogo que deixa você escolher o final é agência narrativa ou transmídia?

É agência narrativa se a escolha do final ocorre dentro do mundo do jogo (você decide uma ação do personagem que dispara diferentes enceramentos). Seria transmídia se o final fosse distribuído entre meios distintos, por exemplo, o jogo oferece uma conclusão aberta e um audiovisual externo completa a história em outra plataforma[1]. Muitos jogos oferecem os dois: escolhas internas que afetam o desfecho (agência) distribuído entre cutscenes interativas e um epílogo em vídeo (transmídia).

Posso usar os três mecanismos no mesmo projeto sem confundir o público?

Sim. Conforme mostrado no exemplo do artigo, uma obra digital pode permitir que você navegue entre vídeos (navegação), escolha ações dentro de um deles (agência) e distribua conteúdos relacionados em página web, jogo e filme (transmídia). O público compreende cada mecanismo quando o projeto é claro sobre quando cada um ocorre: em qual parte você controla a sequência, em qual você age dentro da narrativa, e como os meios se relacionam[1]. O ponto fraco aqui é que clareza exige design intencional; deixar os três mecanismos sem limites explícitos pode resultar em confusão.

A fonte permite dizer que toda narrativa transmídia tem agência?

Não. A fonte define transmídia como distribuição de conteúdos entre plataformas, e agência como escolha de personagens, ações e respostas dentro do mundo proposto[1]. Uma série transmidiática poderia oferecer conteúdos complementares em diferentes meios sem permitir participação interativa. A transmídia oferece formas diferentes de participação conforme a plataforma, mas participação não significa necessariamente agência narrativa, pode ser apenas navegação ou, em algumas plataformas, nenhuma participação interativa[1].

Fontes consultadas

Obras e aulas usadas na redação deste guia. Os números no texto levam a elas.

  1. Lambert, Joe; Hessler, Brooke. Digital Storytelling: Capturing Lives, Creating Community. 5ª edição. Capítulo 10

Continue lendo